Nem mesmo um erro gravíssimo será totalmente ruim
Lucy Kellaway
28/11/2008
Fonte: Valoronline
Olhando em retrospecto para os últimos meses, todo mundo concorda com duas coisas. Erros foram cometidos. E esses erros foram muito graves.
Isso pode parecer óbvio demais para se chamar atenção. Mas expressar esses dois fatos é algo que serve para questionar uma das idéias administrativas mais pérfidas, perigosas e imbecis de todos os tempos. Essa idéia diz que os erros são bons e não devem ser motivos de vergonha. Jack Welch disse isso da seguinte maneira: "Aprendi que os erros podem ser um professor tão bom quanto o sucesso" - e todos os presidentes-executivos com amor-próprio concordam com ele.
Administradores esclarecidos encorajam seus funcionários a cometerem erros por verem isso como um produto da criatividade. Quando funcionários tropeçam, seus chefes não os culpam; em vez disso, fazem uma festa em sua homenagem.
Poucas semanas atrás, Severin Schwan, presidente-executivo da Roche, disse ao "Financial Times": "É extremamente importante ter força de vontade para celebrar o fracasso". Com orgulho, ele contou quando a Roche perdeu um processo importante e ele não os condenou. Em vez disso, abriu um champanhe para provar que em sua companhia, assumir riscos é algo encorajado.
Essa onda do "erros-são-bons" começou, como sempre começam essas coisas, com o grande Peter Drucker. "Ninguém aprende a não ser cometendo erros", escreveu ele em "The Practice of Management". "Quanto melhor um homem, mais erros ele vai cometer- pois mais coisas novas ele vai tentar. Eu jamais promoveria um homem para um cargo de cúpula se ele não tivesse cometido erros, e grandes erros. Caso contrário, teria certeza que ele seria medíocre. E pior ainda: não tendo cometido erros, ele não teria aprendido como detectá-los e corrigi-los."
A prosa da Drucker é brilhante e o argumento soa bem. Mas, se você pensar a respeito por um momento e compará-lo à vida real, vai descobrir que ele está errado. Em primeiro lugar, cometer muitos erros não é necessariamente um sinal de que você está experimentando sua criatividade. É perfeitamente possível- na verdade, um lugar-comum- "pisar na bola" constantemente e ser uma pessoa quadrada e conservadora ao mesmo tempo. Quando penso nos chefes que conheço, aqueles que cometeram mais erros o fizeram por estupidez, incompetência e vaidade, e não por serem ousados.
A segunda grande falácia é a de que aprendemos com nossos erros. Em uma coluna publicada pelo "Financial Times" este ano, David Storey, da Warwick Business School, disse que não há evidências de que os empresários que falharam pela primeira vez têm uma probabilidade maior de serem bem sucedidos na segunda ou terceira vez, do que aqueles que estão começando.
Quanto a mim, quase nunca aprendo com meus erros. Mas isso é o que me faz humana. Seja o que for que me levou a cometer aquele erro pela primeira vez, é o que também me torna propensa a cometê-lo de novo e de novo. Na verdade, consigo pensar em apenas uma ocasião em que aprendi com um erro. Certa vez cumprimentei efusivamente uma colega - que eu sabia que queria ter um filho- por ela estar grávida. Acontece que ela não estava grávida e sim havia engordado muito. Fiquei tão envergonhada que aprendi a nunca mais fazer comentários sobre gravidez.
No entanto, aprender com os erros, nas raras ocasiões em que isso acontece, nem sempre é bom. Hoje fico tão apavorada de confundir uma mulher gorda com uma grávida, que assumo uma postura fria e distraída quando estou diante de uma grávida de gêmeos de oito meses.
Quando aprendemos as coisas dessa maneira, nosso aprendizado quase que certamente é uma reação exagerada, que não deve ser recomendada. As instituições de crédito imobiliário cometeram o erro de emprestar repetidamente para pessoas que não teriam como pagar os empréstimos. E então, quando tudo veio abaixo, o que elas aprenderam com seu erro foi não emprestar a mais ninguém. Isso é possivelmente um erro ainda maior- tanto que o governo está tendo que interferir para fazê-las deixar isso de lado.
Mas, mesmo que Drucker esteja errado, ele está menos errado que os idiotas que fazem o que ele prega. O escritor Paul Arden escreveu um livro particularmente bobo, dois anos atrás, chamado "Whatever You Think, Think the Oposite" (algo como "Pense o Oposto de Tudo Aquilo que Você Pensar"). Uma de suas máximas é: "Comece tomando decisões ruins, o que vai levá-lo a um lugar que os outros apenas sonham em estar"- uma visão estúpida demais para ser digna de uma resposta.
A maioria de nós não consegue evitar os erros. Cometemos erros o tempo todo. O que claramente precisamos é de um sistema que nos proteja de nós mesmos e nos torne mais cuidadosos. Uma repreensão pode funcionar muito bem, assim como um processo por difamação e calúnia. Como jornalista, estou sujeita a errar, mas sei que um erro significa uma correção embaraçosa no jornal do dia seguinte e portanto tento ser muito cuidadosa. Isso não significa que nunca serei criativa ou nunca assumirei um risco. Cautela e criatividade não são uma coisa ou outra. Podemos tentar os dois.
Você poderia pensar que toda essa celebração dos erros teria tido pelo menos um efeito colateral bom. Se os erros fossem uma coisa boa, certamente as pessoas iriam fazer fila para alardear quantos erros elas cometeram. Aliás, a coisa parece não ter funcionado assim: nas últimas semanas não houve banqueiros se apressando para assumir qualquer erro.
Se você perguntar a alguns líderes empresariais quais foram os maiores erros que eles cometeram, é quase certo que eles admitirão uns poucos sem importância. Lembro de um presidente-executivo que me disse que seu maior erro foi mandar alguém fazer um trabalho que não gostava.
Esse foi o erro mais bobo que já ouvi. Assim como Drucker, eu não daria a essa pessoa um grande emprego. Mas não por ela não ter cometido erros o suficiente, e sim porque se ela diz que esse foi seu maior erro, ela está mentindo.
Lucy Kellaway é colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada quinzenalmente na editoria de Carreiras.
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