quinta-feira, dezembro 11, 2008

Parceria forma professores esquecidos pelo mundo

Yan Boechat, de Luanda
11/12/2008
Fonte: Valornline

O sorriso escancarado das crianças que brincam e correm pelas vielas sujas e esburacadas do Cazenga insiste em tentar maquiar a dura realidade dos moradores deste que é o maior, o mais populoso e também o mais miserável bairro de Luanda, a capital de Angola. As centenas de milhares de barracos construídos com folhas de metal não têm água, luz ou o mais básico sistema de saneamento. Criado sobre o antigo lixão de uma Luanda ainda colonial pelos milhões de refugiados da guerra civil que arrasou o país por quase 30 anos, o Cazenga é o perfeito estereótipo das grandes e super povoadas cidades da África subsaariana.

Estimativa é de que 70% da população local não tenha nenhum tipo de qualificação .

Ninguém sabe ao certo quantas pessoas vivem ali, assim como ninguém sabe ao certo quantas pessoas vivem em Luanda ou em Angola. Após 27 anos de uma guerra que destruiu a infra-estrutura do país, paralisou qualquer atividade econômica e consumiu todos os recursos , dados estatísticos são um luxo do qual Angola não pôde desfrutar nas últimas décadas. Só agora, seis anos após a guerra ter chegado ao fim, o governo tenta realizar um senso para saber quantas pessoas vivem no país.

A estimativa é de que cerca de dois milhões de pessoas se amontoem nesta área que ainda lembra os tempos em que todo o lixo de Luanda era despejado ali. Vindos de todas as províncias de Angola, a maior parte desses refugiados era agricultor em sua terra natal. Chegaram à cidade sem nada saber fazer que não trabalhar a terra e, sem nenhum tipo de estrutura, seus filhos crescem também sem nada saber fazer. A estimativa é de que quase 70% dessa população não tenha nenhum tipo de qualificação profissional. "As pessoas sobrevivem aqui do jeito que podem, não têm a mínima qualificação, por menor que seja, e não conseguem nenhum tipo de trabalho formal", afirma o padre Marcelo Ciavatti que coordena o projeto dos Salesianos do Dom Bosco na paróquia instalada no bairro.

Os Salesianos estão no Cazenga há mais de 20 anos, quando o grosso dos refugiados começou a tomar conta do antigo lixão. A organização religiosa montou um pequeno centro de formação profissional. Sem apoio oficial, o Centro de Formação Santa Bakhita não conseguia atender à grande demanda de jovens buscando a profissionalização.

Há dois anos, a construtora brasileira Camargo Corrêa também chegou ao Cazenga. A companhia venceu uma licitação para pavimentar uma série de ruas do bairro. "Quando chegamos, ficamos impressionados, era preciso retirar uma camada de 60 cm de lixo e chorume (gordura) para chegar ao solo propriamente dito", diz o engenheiro Luiz Mattaraia, que coordena as obras no bairro.

Mas não foi só a sujeira e a falta crônica de condições de higiene que impactaram os funcionários da empresa. "Vimos que havia uma carência completa de formação profissional", diz Amauri Pinha, diretor geral da Camargo Corrêa em Angola. "Percebemos que tínhamos o dever de fazer algo pela comunidade onde estávamos inseridos", afirma o executivo.

Em pouco tempo a Camargo Corrêa percebeu que fortalecer o projeto dos Salesianos no Cazenga era o melhor caminho para ajudar a população do bairro. A construtora contatou o Instituto Camargo Corrêa, o braço social do grupo, para desenhar um projeto que pudesse unir o desejo de a construtora participar do desenvolvimento da região e as diretrizes já aplicadas pela organização religiosa. "Queríamos algo que mobilizasse a comunidade, não queríamos ser paternalistas, queríamos formar uma parceria", diz Francisco Azevedo, diretor do Instituto Camargo Corrêa.
A decisão dos técnicos do instituto foi modernizar as instalações do Centro Santa Bakhita e capacitar os professores. Ao longo deste ano, a Camargo Investiu cerca de US$ 1,8 milhão na reforma das instalações e na compra dos equipamentos que serão utilizados nas aulas de formação profissional. Montou no local um centro de formação que deve atender cerca de mil jovens todos os anos.
Cada um deles poderá escolher entre diversos tipos de formação profissional, que vão desde técnicos em eletricidade, passando por corte e costura, culinária até informática. Em parceria com o Senai, o instituto vai enviar quatro professores de São Paulo para treinar os professores do Cazenga. Eles devem ficar cerca de três meses no bairro ensinando os professores a dar as aulas com mais qualidade e eficiência. "O que estamos fazendo é dar o passo inicial, mas a coordenação e a gerência de todo o projeto serão feitos pela comunidade", diz Francisco Azevedo.
O Centro Santa Bakhita começa a funcionar em março e é o primeiro de um programa mais amplo da construtora em Angola, batizado de projeto Kidimacaji. A idéia da companhia é repetir a experiência do Cazenga em pelo menos outras três regiões do país onde atua, no Norte e no Sul de Angola. Após a formação dos alunos, a Camargo Corrêa compromete-se a selecionar os melhores para fazerem um estágio na companhia. Se eles se saírem bem devem ser contratados pela empresa para integrar os quadros de forma permanente.
Vitoriano Quissanga, de 24 anos, sonha com essa chance. Nascido e criado no Cazenga, sua história é muito semelhante à de quase todos de sua idade por ali. Seus pais vieram do interior fugidos da guerra e ele, sem condições, pouco estudou. Vitoriano ainda é vítima de um país onde a saúde pública ficou longe das prioridades do governo. Contraiu poliomielite na infância e hoje se locomove com destreza pelas vielas do bairro com a ajuda de muletas. "Aqui, nós apenas sobrevivemos, a esperança é que um projeto desses nos permita ao menos viver", diz ele.

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