Um olhar novelesco sobre os presidentes de empresas
Lucy kellaway
03/10/2008
Fonte: Valoronline
Em 1946, um amigo de George Orwell estava conversando sobre leitura com dois operários e a razão para eles não terem esse hábito. "Livros custam muito caro para pessoas como nós", explicou um deles.
O acontecimento levou Orwell a escrever um ensaio curto intitulado "Books x Cigarettes" (Livros versus cigarros), que acaba de ser republicado pela Penguin. Ele começa contando o número de volumes em suas estantes (442), desconta os livros que foram presentes ou que ele tomou emprestado, soma tudo e calcula que gastou 25 libras com leitura em um ano, o que foi 15 libras a menos que o gasto com cigarros. Ele então tenta colocar um preço no prazer que ele tem por hora com a leitura e conclui que ela é o entretenimento mais barato que existe, à parte ouvir rádio.
É possível achar brechas em sua metodologia- ele não ajusta os preços à inflação, por exemplo. Mesmo assim, sua conclusão é correta. O motivo pelo qual as pessoas não lêem livros não tem nada a ver com o custo: é porque elas preferem gastar dinheiro nos pubs ou nas corridas de cachorros.
Transcorridos sessenta anos, os livros estão ainda mais baratos. Fiz meus próprios cálculos e posso confirmar que, desde 1946, o preço médio de um bom livro de capa dura passou de cerca de 12 xelins para cerca de 16,99 libras, um aumento de 28 vezes.
O preço de um pacote com 20 cigarros , que custava então pouco mais de 1 xelim, aumentou 75 vezes. Embora praticamente qualquer um possa comprar um livro hoje, as pessoas continuam não lendo. E não são apenas os operários que não lêem: empresários também não lêem. E o que eles particularmente não lêem são as obras de ficção.
Perguntei a dois executivos graduados por quê isso acontece. Ambos disseram a mesma coisa: "Não tenho tempo". Um deles disse que lê romances nas férias mas, quando pressionado, conseguiu mencionar apenas o último "thriller" de Robert Harris, que ele não terminou. O outro disse que lê biografias e livros de história. Ele descarta os de ficção, porque alega que gosta de aprender alguma coisa quando lê.
Mas ele pode estar errado quanto a este último ponto. Administradores podem ler muita ficção, ou assim pensa Sandra Sucher. Ela ministra um curso na Harvard Business School no qual faz diretores de empresas se sentarem para discutir obras de ficção.
Ela acredita que os líderes empresariais deveriam roubar de suas esposas a idéia do clube do livro, reunirem-se com colegas uma vez por mês para discutir os dilemas morais apresentados pelas obras de ficção. Ela sugere que eles discutam o romance "The Remains of the Day" (Vestígios do dia), de Kazuo Ishiguro, que é sobre as lembranças de um velho e solitário mordomo inglês. Ele leva sua vida polindo colheres de café e demonstrando lealdade eterna ao seu patrão, em vez de lutar pela mulher que amava. A idéia com a história desse mordomo eduardiano é que os empresários cheguem em casa tendo em mente que a lealdade de um funcionário tem um preço.
Na semana passada, decidi buscar outros títulos adequados para presidentes de empresas e visitei uma livraria que acaba de abrir em Bloomsbury chamada "The School of Life". É um lugar pequeno e peculiar, um cruzamento inquietante, retrô, new age e amalucado, prestigiado pelo filósofo popular Alain de Botton. Ela emprega "bibliólogos" que oferecem indicações de leitura de livros que vão "transformar e iluminar" a vida das pessoas.
Perguntei a um deles, uma mulher, sobre livros para iluminar a vida de um poderoso presidente de uma grande empresa. Ele recomendou, entre outras coisas. "Tess of the D´Ubervilles", que mostra como não se deve tratar as pessoas que estão em posição servil. E "As Vinhas da Ira", que trata das potenciais armadilhas que uma pessoa que está no comando enfrenta.
Eu gostaria de gostar dessa idéia do clube do livro, mas, na verdade, eu acho que é uma coisa inútil. Presidentes de empresas já passam tempo demais em reuniões e não consigo imaginar como eles terão uma revelação moral passando ainda mais tempo em volta de uma mesa ouvindo os sons de suas próprias vozes.
Também fico preocupada com as lições desses romances. A grande literatura envolve sutileza e ambigüidade: as empresas lidam com a certeza e a probabilidade. É difícil ver o que os presidentes de empresas ganhariam discutindo o romance de Thomas Hardy que trata de sexo antes do casamento, convenções, assassinato, paixão.
Enchi baldes de lágrimas quando o li nos meus 20 anos e acho que minha conclusão foi de que o amor pode ser cruel, especialmente naquela época.
Para mim, o ponto em se ler romances é escapar para um outro mundo. Eu adorei "Tess of the D´Ubervilles", em parte porque gostei de ser uma leiteira bonita com uma culpa secreta e perseguida pelo filho bonitão do vigário. E é por isso, eu acho, que os presidentes de empresas nunca conseguem ler romances. Porque eles estão perfeitamente satisfeitos com suas próprias vidas e não desejam ser uma leiteira.
Mesmo assim, se tudo mais falhar, pelo menos a ficção é muito boa para se exibir. O chefe de um amigo que trabalha para uma grande companhia recentemente andou tentando fazer sua equipe criar valores de marcas pessoais. Para explicar o conceito, ele fez todos discutirem os valores de marca de Gwendolen Harleth. Muitos da equipe ficaram sem saber como fazer esse exercício por desconhecerem o romance "Daniel Deronda", o que permitiu ao chefe revelar sua superioridade cultural. A história me faz estremecer: a tentativa de impor algo tão banal quanto os valores de marca pessoal na sublimidade de George Eliot beira à blasfêmia.
Mais que isso, há algo muito grande que se ganha lendo ficção -ajuda as pessoas a escreverem de maneira mais elegante. No fim das contas, é por isso que os presidentes de empresas deveriam ler Thomas Hardy ou Steinbeck: não há uma mudança de paradigma ou uma área principal de competência para ser encontrada em nenhum deles.
Lucy Kellaway é colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada quinzenalmente na editoria de Carreiras


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