sexta-feira, setembro 19, 2008

Adolescentes problemáticos e seus pais executivos

Lucy Kellaway
19/09/2008
Fonte: Valoronline


No último período letivo, o filho de um empresário veterano foi pego roubando o iPod de outro aluno e foi suspenso da elegante escola de Londres em que estava matriculado. Esta história de roubo é de grande interesse para cerca de uma dezena de pessoas. Para o empresário - que certamente deu uma bronca no garoto -, para o rapaz, sua mãe, o diretor da escola, sua vítima e os colegas de classe que sentiram toda aquela excitação que surge quando alguém se mete em encrenca. Caso contrário, ninguém teria ligado.


Fiquei sabendo sobre o ocorrido na semana passada e também não dei muita atenção. Mesmo assim o caso me fez imaginar o que poderia ter acontecido- vamos apenas supor- se não tivesse envolvido o filho de um empresário e sim a doce filha mais velha de Barack Obama. Aí, muita gente teria se importado: na verdade poderia ter custado a seu pai uma derrota nas eleições presidenciais americanas.


Se você é um político, especialmente um americano, seus filhos são um perigo para você. As transgressões deles passam a ser suas, como Sarah Palin descobriu quando o mundo se arrepiou ao descobrir que sua filha adolescente está grávida de cinco meses. Felizmente para sua mãe, um noivado foi rapidamente arranjado e o desastre político foi evitado, mas passou perto.


Há uma lição óbvia aqui: a menos que você não tenha filhos, entrar para a política é uma má idéia. Até mesmo adolescentes comportados fazem sexo sem proteção, embebedam-se, usam drogas, tornam-se anoréxicos ou bulímicos e, se você tiver cinco filhos- como tem Sarah Palin-, as chances de um deles infligir danos colaterais a você em algum momento chegam perto de ser uma certeza.


Por outro lado, se você é um líder empresarial, seus filhos podem aprontar o quanto quiserem sem prejudicar sua carreira. Alguém poderia dizer que isso não é justo. Assim como os políticos, os líderes empresariais deveriam ser exemplos para as pessoas que eles comandam. Se não conseguem controlar alguns adolescentes em casa, porque eles deveriam liderar milhares de trabalhadores?


Há três coisas erradas com essa linha de pensamento. Manter os próprios filhos adolescentes sob controle o tempo todo pode ser mais difícil do que manter na linha uma companhia- ou um país. Os pais amorosos de adolescentes mal comportados são sempre motivo de pena, assim como dignos de culpa. E se os filhos de políticos e empresários saem mais da linha do que os outros, a culpa não é da fraca liderança dos pais, e sim de seus empregos, que geram muito dinheiro e fama, e os mantêm tempo demais no trabalho.


Os acionistas parecem ter uma postura bem definida sobre isso. Eles não são sentimentais em relação ao caráter (como os eleitores parecem ser). E do ponto de vista deles, se alguma concessão tiver que ser feita, é melhor que os filhos sejam negligenciados.


Os filhos de empresários precisam sair espetacularmente da linha para que alguém dê alguma atenção. Patty Hearst foi raptada e juntou-se a uma guerrilha, mas ela era especial. Paris Hilton também é especial- por ser a celebridade mais superestimada do mundo. Ela pode ir para a prisão por dirigir bêbada, mas eu duvido que as taxas de ocupação de quartos da rede hoteleira fundada por sua família sofram com seus escândalos.


Mesmo quando o filho execrado trabalha na mesma organização do pai, o dano é menor. O filho de Sandy Weill, ex-presidente do Citibank, deixou subitamente seu poderoso emprego no banco, poucos anos atrás, e se internou em uma clínica de reabilitação de drogados. Embora isso tenha circulado pela internet, a carreira de Weill pai seguiu em frente, triunfante. Em sua biografia, a história mal merece uma linha.


Em tese, danos podem ser provocados quando os valores adotados pelos filhos estão em desacordo com os dos pais, mas na prática ninguém liga muito por muito tempo. A rainha Elizabeth II (que é a chefe de um tipo de família de negócios) tem como sua principal marca a fisionomia impassível. Essa característica não esteve presente no divórcio terrivelmente emocional de seu filho mais velho. Mas isso prejudicou a rainha? Após um pequeno período em baixa, ela é hoje mais popular do que nunca.


Do mesmo modo, Eddie Izzard, o famoso comediante travesti, é filho de um contador heterossexual. As travessuras do filho parecem não ter prejudicado o pai- Harold Izzard acaba de ganhar um prêmio pelos "relevantes serviços prestados à profissão de auditor interno."
Consigo me lembrar de apenas uma pessoa do mundo dos negócios que tenha sido prejudicado pelo comportamento de um filho: Martin Lukes. Este ano, o diretor-presidente da a-b glöbâl foi considerado culpado pela passagem de informações sigilosas para seu filho corretor de valores e agora está na prisão, com a reputação aos pedaços.


O único dano rotineiro que um filho problemático pode infligir à carreira do pai é ser tão problemático que isso acaba distraindo o pai em seu trabalho. Fora isso, há uma probabilidade maior dos filhos ajudarem, do que atrapalharem. Para começar, eles são caros. É tão caro dar a eles escola até a faculdade que os pais precisam trabalhar duro por um período de tempo muito grande.


Segundo, os filhos proporcionam um mundo paralelo. Quando o trabalho fica insuportável, há os filhos para distrair. E quando os filhos se comportam de maneira odiosa e incontrolável, a paz e civilidade do escritório oferecem um refúgio maravilhoso.


Mas o maior serviço prestado pelos filhos aos seus ambiciosos pais é deixá-los desanimados. Os adolescentes dizem com freqüência aos pais que eles são um lixo. Se o pai é o presidente de uma empresa de ego inflado, este é um serviço inestimável, já que ninguém mais teria coragem de prestá-lo.


Lucy Kellaway é colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada quinzenalmente na editoria de Carreiras

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