sexta-feira, outubro 17, 2008

Para manter novo pólo de TI Floripa "importa" executivos

Por Maurício Oliveira, para o Valor, de Florianópolis
17/10/2008
Fonte: Valoronline


Um número crescente de profissionais oriundos dos grandes centros do país está conseguindo viabilizar o sonho de morar na paradisíaca capital catarinense graças ao desenvolvimento do pólo local de tecnologia da informação (TI). A região já conta com quase 400 empresas do setor e pelo menos 30 novos negócios são abertos a cada ano. Como a formação local de mão-de-obra não é suficiente para acompanhar o ritmo de expansão do mercado, muitos dos 5 mil postos de trabalho vem sendo ocupados por pessoas de outros estados. "Programadores, arquitetos de sistemas, gerentes de projetos e outros profissionais qualificados que chegam à cidade certamente não ficam desempregados. Temos 500 vagas em aberto neste momento", diz o presidente da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate), Rui Luiz Gonçalves.


O pólo nasceu da combinação de uma série de fatores, dos quais o mais importante é a existência de bons cursos universitários na área de tecnologia. A partir disso, houve a decisão estratégica de incentivar a atividade, principalmente por se tratar de uma indústria limpa, cujo desenvolvimento não coloca em risco o festejado patrimônio natural da cidade. Nascia assim uma alternativa econômica ao comércio sustentado pelo funcionalismo público e à exploração do turismo, realizada em grande parte informalmente, sem recolhimento de impostos- e que sempre sofreu com a sazonalidade, uma vez que se concentra nos três meses de verão. Hoje, o setor de TI já é o que mais fatura em Florianópolis. Foram R$ 476 milhões em 2007, crescimento de 48% em relação ao ano anterior. Com isso, o município faturou R$ 9,9 milhões em Imposto Sobre Serviços (ISS), arrecadação duas vezes superior à proporcionada pelo setor de turismo.


O desenvolvimento do pólo se deu gradualmente ao longo dos últimos 20 anos, mas um capítulo bem mais recente dessa história é o acolhimento, pelas empresas de TI, de profissionais com carreira executiva. É o caso do paulistano Anderson Gomes, 30 anos, contratado há pouco mais de um mês como gerente de marketing da BRy Tecnologia, especializada em produtos e serviços voltados à segurança no uso de documentos eletrônicos. Formado em administração de empresas pelo Mackenzie e pós-graduado em marketing estratégico pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Anderson já havia trabalhado com o setor de TI em São Paulo quando tomou a decisão de se mudar para a capital catarinense, em 2005, mesmo sem conhecer ninguém na cidade. "Eu sempre quis morar em Floripa e tinha informações sólidas sobre o crescimento do mercado local de tecnologia. Resolvi apostar todas as fichas nesse projeto", descreve.


Ter sido escolhido no processo de seleção para a vaga na BRy Tecnologia, empresa com 25 funcionários e projetos ambiciosos de crescimento, foi o coroamento da decisão que o fez enfrentar algumas dificuldades nos primeiros tempos- incluindo aperto financeiro e um emprego temporário como caixa de banco, até conseguir a primeira oportunidade na área de especialização. "Foi um período complicado, que exigiu persistência, mas valeu a pena. Se eu tivesse ficado em São Paulo, é provável que não tivesse posição e salário superiores aos que tenho aqui. Sem falar no imenso ganho na qualidade de vida", compara.


Enquanto em São Paulo Anderson costumava gastar pelo menos 14 horas por dia no escritório e no trânsito, em Florianópolis ele consome não mais que dez horas. "As pessoas aqui também trabalham bastante, mas há limites, como se a beleza natural da cidade alertasse o tempo todo sobre a necessidade de equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal", descreve. Com mais tempo disponível fora do escritório, ele passou a jogar futebol na praia com freqüência, atividade que o levou a fazer amizades e a se enturmar com os amigos dos amigos. Foi nesse circuito que conheceu a namorada- que também não é catarinense, e sim gaúcha.


A quem pretende percorrer caminho semelhante, Anderson sugere estar preparado para enfrentar a resistência das pessoas próximas. Ao anunciar a ex-colegas de trabalho, de universidade e de pós-graduação que iria se mudar para Florianópolis, ele se deparou com uma situação que se repete com freqüência quando um profissional jovem decide trocar uma metrópole por um centro menor: ouviu poucas palavras de incentivo e muitas opiniões desanimadoras. "Disseram que minha carreira ficaria estagnada e que eu acabaria voltando para São Paulo, onde ´tudo acontece´. Mas continuo me sentindo tão atualizado e ligado ao mercado quanto antes", avalia.


É preciso, também, estar ciente de que Florianópolis é ainda uma cidade com menos de 400 mil habitantes, sujeita não apenas às vantagens típicas de tal condição, mas também a limitações -entre as mais sentidas para quem vem dos grandes centros estão os salários em média 30% inferiores e a carência de atrações culturais. Por outro lado, problemas típicos das metrópoles começam a ser percebidos: congestionamentos no trânsito, aumento nos índices de violência urbana e custo de vida comparável ao de São Paulo.

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